sexta-feira, 2 de maio de 2025

A ditadura das telas by Nelson Motta

 

Olá....

Nesta manhã, como em todas, circulando pelas paginas de jornais que assino na Web, encontrei artigo/crônica de autoria de Nelson Motta publicado(a) no site de O Globo nesta data. Gostei do contido no texto publicado e fiquei com vontade de compartilha-lo com vocês.

Pelo que observei, o texto está disponível no site para assinantes apenas. Tomei a liberdade de fazer um copy/paste, inclusive da foto utilizada como ilustração e colocá-lo por aqui.

Finalmente, esclareço que não estou lucrando nada com essa postagem e que todo o texto reproduz fielmente o que consta no original publicado.

Obrigado!




terça-feira, 22 de abril de 2025

Descansou...


Hoje, 22 de abril de 2025, o Vaticano apresentou texto escrito pelo Papa Francisco em fevereiro, como prefácio para o novo livro do cardeal Angelo Sola, arcebispo emérito de Milão, sob o título “Na espera de um novo começo. Reflexões sobre a velhice” a ser lançado no próximo dia 24.

Reproduzo o texto conforme foi publicado na página do jornal O Globo, o qual recomendo para reflexão.

“Li com emoção estas páginas nascidas do pensamento e do afeto de Angelo Scola, querido irmão no episcopado e pessoa que desempenhou serviços delicados na Igreja, como ter sido reitor da Pontifícia Universidade Lateranense, depois patriarca de Veneza e arcebispo de Milão. Antes de tudo, quero expressar a ele toda a minha gratidão por esta reflexão que une experiência pessoal e sensibilidade cultural como poucas vezes tive a oportunidade de ler. Uma, a experiência, ilumina a outra, a cultura; a segunda dá substância à primeira. Nesse entrelaçamento feliz, a vida e a cultura florescem em beleza.

Não se deixe enganar pela forma breve deste livro: são páginas muito densas, para serem lidas e relidas. Das reflexões de Angelo Scola, colho algumas passagens que ressoam particularmente com aquilo que a minha própria experiência me levou a compreender.

Angelo Scola nos fala da velhice, da sua velhice, que – ele escreve com um toque de desconcertante sinceridade – 'caiu sobre mim com uma aceleração repentina e, em muitos aspectos, inesperada'.

Já na escolha da palavra com que se autoidentifica, 'velho', encontro uma afinidade com o autor. Sim, não devemos ter medo da velhice, não devemos temer abraçar o envelhecer, porque a vida é a vida, e adoçar a realidade significa trair a verdade das coisas. Restituir orgulho a um termo muitas vezes visto como pejorativo é um gesto pelo qual devemos ser gratos ao cardeal Scola. Porque dizer 'velho' não significa 'descartável', como às vezes uma cultura degradada do descarte nos faz pensar. Dizer velho, ao contrário, é dizer experiência, sabedoria, discernimento, ponderação, escuta, lentidão... Valores dos quais precisamos urgentemente!

É verdade, envelhecemos, mas esse não é o problema: o problema é como envelhecemos. Se vivemos essa etapa da vida como uma graça, e não com ressentimento; se acolhemos esse tempo (ainda que longo) em que experimentamos forças reduzidas, o cansaço físico crescente, os reflexos já não iguais aos da juventude, com um senso de gratidão e reconhecimento, então, a velhice também se torna uma etapa da vida, como nos ensinou Romano Guardini, realmente fecunda e capaz de irradiar o bem.

Angelo Scola destaca o valor humano e social dos avós. Já ressaltei várias vezes como o papel dos avós é fundamental para o desenvolvimento equilibrado dos jovens e, em última análise, para uma sociedade mais pacífica. Porque seu exemplo, suas palavras, sua sabedoria podem inspirar nos mais jovens um olhar mais amplo, a memória do passado e o apego a valores duradouros. Em meio à correria das nossas sociedades, muitas vezes voltadas para o efêmero e para o gosto doentio pela aparência, a sabedoria dos avós torna-se um farol que brilha, ilumina a incerteza e dá direção aos netos, que podem tirar da experiência deles um 'algo a mais' para sua vida cotidiana.

As palavras que Angelo Scola dedica ao tema do sofrimento, que muitas vezes se instala com o envelhecer, e consequentemente à morte, são joias preciosas de fé e esperança. Na argumentação deste irmão bispo, ouço ressoar a teologia de Hans Urs von Balthasar e de Joseph Ratzinger, uma teologia 'feita de joelhos', imersa em oração e diálogo com o Senhor. Por isso, disse há pouco que estas são páginas nascidas do 'pensamento e do afeto' do cardeal Scola: não apenas do pensamento, mas também da dimensão afetiva, aquela à qual a fé cristã remete, pois o cristianismo não é tanto uma ação intelectual ou uma escolha moral, mas, sim, o afeto por uma pessoa, aquele Cristo que veio ao nosso encontro e decidiu nos chamar de amigos.

É justamente a conclusão destas páginas de Angelo Scola, que são uma confissão de coração aberto de como ele está se preparando para o encontro final com Jesus, que nos devolve uma certeza consoladora: a morte não é o fim de tudo, mas o começo de algo. É um novo começo, como sabiamente destaca o título, porque a vida eterna – que quem ama já experimenta aqui na terra em meio às ocupações do dia a dia – é o começo de algo que não terá fim. E é exatamente por isso que é um começo 'novo': porque viveremos algo que nunca vivemos plenamente – a eternidade.

Com estas páginas nas mãos, gostaria idealmente de repetir o mesmo gesto que fiz assim que vesti o hábito branco de Papa, na Capela Sistina: abraçar com grande estima e afeto o irmão Angelo, agora ambos mais velhos do que naquele dia de março de 2013. Mas sempre unidos pela gratidão a esse Deus amoroso que nos oferece vida e esperança em qualquer idade da nossa existência.

Cidade do Vaticano, 7 de fevereiro de 2025".


domingo, 20 de abril de 2025

Memória - I


Ultimamente, quando ligo meu computador portátil abro um aplicativo de textos e fico no aguardo de alguma inspiração para começar a digitar o que surge dela, mas nada acontece. Confesso que tais ocorrências me desanimam. Por outro lado, recordo de já ter lido em algum momento que em boa parte, a inspiração vem acompanhada de muito trabalho como a elaboração de um "roteiro", escolha de palavras, ritmo e estabelecimento de uma cumplicidade do autor junto ao leitor a ser atingido. Enfim, não é tarefa fácil.

Quando mais jovem, usava a máquina de escrever de minha mãe e folha de papel. A lembrança que tenho desse processo é de que tudo acontecia com mais facilidade. Havia um porém, dificilmente os textos ultrapassavam uma página, seja um poema ou uma pequena história, como se estivesse meio ancorado aos ditames estabelecidos para elaboração de uma redação ou crônica literária. Minha primeira experiência em texto veio de uma tarefa dada por professor de português ainda nos tempos de ginásio. A única regra estabelecida era de que escrevêssemos uma história com começo, meio e fim para ser entregue na próxima aula que ocorreria no prazo de quarenta e oito horas. Passei o resto do dia e boa parte da noite tentando definir o tema a ser abordado e nada... Já na madrugada da primeira noite sonhei que estava viajando num trem de onde era possível ver um campo repleto de flores, talvez fossem girassóis visto que as cores eram fortes e "reais", mas onde haveria uma história aqui? Qual seria o tema?

Escrever, para mim, sempre esteve ligado à intuição. Acredito que isso também aconteça com a maioria das pessoas. Como um bom ginasiano, não dispunha das ferramentas e treinamento adequados para a ambição existente de elaborar um campeão de vendas, certo? Seguindo então...

A busca por uma história baseada no sonho descrito, já que não conseguira identificar nada diferente, terminou quando defini alguns pontos:

- Uma vez que eu me via num trem, certamente eu estava indo visitar alguém;

- O sentimento que me colocava nessa "viagem" era de uma saudade, ainda indefinida, que precisava ser resolvida;
- Não ficava bem (pelo menos naquela época) um garoto descrever minha absoluta admiração pela beleza do que tinha visto, isso era coisa de menina.

Então, surgiu "Patrícia e as flores" em três páginas datilografadas. Chegar a esse número de páginas foi árduo. Tive de recuperar memória de uma viagem de trem que fizera quando mais jovem no interior de Minas Gerais (na região do Triângulo Mineiro); de uma visita à pequena fazenda de parentes na região onde um monjolo era usado para triturar sementes (milho, por exemplo), galinhas eram criadas para subsistência e um cão tipo perdigueiro que também era um ótimo vigilante. Enfim, o texto se perdeu no tempo, mas o professor o guardou mesmo que tenha me dado uma nota pouco acima da média por conta de erros gramaticais, que, a meu ver não faziam a menor diferença já que cumprira a tarefa estabelecida.

Bom, como minha saudosa mãe contava, "o tempo é inexorável". A vida e decisões pessoais me conduziram por caminhos estranhos e diversos que me afastaram vez por outra de minha afeição pelas palavras e mesmo teimando com a gramática, esse documento pode ser o primeiro de muitos (espero que sim).

Até mais!