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Em pleno domingo de carnaval tivemos a entrega de Oscars para as melhores produções cinematográficas segundo votação de um grande número de profissionais ligados de alguma forma à indústria de ilusão instalada em Hollywood.
O grande vencedor deste ano é um filme realizado na Índia. Segundo li, uma história rejeitada pelos grandes estúdios, que acabou sendo filmado com orçamento baixo para os padrões da indústria americana. Foram usados atores e equipes locais.
Durante a semana, me chamou a atenção a notícia de que o pai de um dos atores que participaram do filme surrou o filho porque este não queria dar mais uma entrevista à jornalista de TV local (da cidade de Mumbai se não estou enganado).
Fico imaginando o que teria acontecido. Uma família pobre é alçada ao estrelato por conta de um filme que ganha fama internacional. Tremendo impacto! E isto me fez lembrar uma história.
No final de década de 1980, fui contratado para trabalhar como Médico do Trabalho na construção de uma usina hidrelétrica para São Domingos (interior de Goiás). São Domingos era, por assim dizer, quase uma vila. Cidade com energia fornecida por motores a Diesel que careciam de manutenção e que eram ligados apenas no final da tarde.
Além da tradicional praça principal com a igreja do padroeiro tudo o mais era expressão da carência da população que vivia imersa em sua própria melancolia. A cidade nada produzia. Era mais um entreposto para os fazendeiros de gado da região.
A construtora ao chegar à cidade, trouxe consigo centenas de trabalhadores. Como não havia estrutura, a empresa construiu uma série de casas de alvenaria para os funcionários de nível médio e superior. Os peões permaneciam em alojamentos construídos no próprio canteiro. Tudo de acordo com a lei.
Mas o impacto foi cruel. Se economicamente, começou a circular dinheiro na cidade, os pais hostilizavam (e com razão) os estrangeiros que chegavam à cidade e que poderiam destruir os sonhos de um bom casamento para suas respectivas filhas, o que efetivamente aconteceu em alguns casos.
O dono do prostíbulo da cidade faturou muito. A construtora gastou bastante em tratamento de doenças venéreas em seus peões já que a prefeitura “desconhecia” a existência de tal comércio na cidade.
Mais de 20 anos se passaram. Imagino as conseqüências desta “construção”. Fico imaginando agora o que vai acontecer ao rapaz de Mumbai que apanhou do pai na frente de todos. Impressionante como os verdadeiros agentes destas histórias continuam agindo sem que lhes seja cobrada qualquer responsabilidade social sobre os fatos.
Lamentável!
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domingo, 1 de março de 2009
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